Antologia dos poemas durienses

Antologia dos poemas durienses

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LEONOR

A Leonor continua descalça,
o que sempre lhe deu certa graça.

Pelo menos não cheira a chulé
e tem nuvem de pó sobre o pé.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor.

Um filhito ranhoso na mão,
uma ideia já podre no pão.

Meia dúzia de sonhos partidos,
a seus pés, como cacos de vidros.

Diga lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor.

 

 

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Opiniões

Mas o passo decisivo para a compreensão integral do Douro veio-me com a leitura da poesia duriense. António Cabral acima de tudo, que por essa altura publicava os seus Poemas Durienses. A odisseia humana do Douro só então se me representou em toda a sua desconformidade. E então o Douro passou a ser uma entidade dupla para mim: o rio e a região. Distintos, porém inextricáveis. Qualquer deles uma coisa de meter respeito. Foi pois em António Cabral, que vi tão de chofre como numa revelação, que o Douro região não apareceu ali como bandeja por um deus bonacheirão (qual Baco nem meio Baco), mas foi levantado à custa de muito sangue, suor e lágrimas, que perdoe o velho Winston. 1

Com a sua Antologia dos Poemas Durienses, António Cabral tornou-se uma figura imorredoura do País Vinhateiro ou, se quiserem, do Reino Maravilhoso. Maravilhoso pelas paisagens, pelos seus versos: “Primeiro, vejo-o descer como um sinal / distante; depois, o cravo da luz transborda. A asa / regressa, finalmente, ao corpo / e segue com ele. // A explosão da tarde na vidraça da quinta / e o voo amplo do grifo predador. / Como vou eu sentá-los / à mesa do banquete? // O rio Douro nasce na serra de Urbión, / em Espanha, ao pé de uma erva, / e vai desaguando / na erva seca de muitos olhos // que calculam a sua própria distância em vinho.” Bem, se “canta o cuco nos campos de Sabrosa”, Cabral canta, urbi et orbi, este Douro emocionante, que galvaniza novos públicos, mas que continua padrasto para os que deveria ter e tratar como seus filhos. (…) Aí está o Cabral, a escrever! 2

António Cabral, que preza em considerar-se transmontano-duriense, é uma referência obrigatória no contexto da atual poesia portuguesa. Perito na etnografia dos jogos populares, ficcionista e dramaturgo, é, todavia, como poeta que ele mais se tem destacado. Nos anos sessenta e setenta, muitos dos seus poemas foram cantados, tendo o Padre Fanhais musicado, entre outros, “Descalça vai para a fonte” e “À saída do correio”.
(…)
Assim como sem um copo de vinho a vida não vale a pena, sem um pouco de poesia a vida massifica-se. A lição de António Cabral nestes poemas durienses pode ser esta:
O homem que anda neste mundo deve olhar para todos os lados do caminho. Cada um de nós é o homo viator de que falava Gabriel Marcel. A poesia, embora não sendo caminho certo, uma vez que “tudo é verdade e caminho”, como dizia Fernando Pessoa, pode contudo amenizar a jornada. A jornada tornar-se-á mais amena se, em vez de uma estrada, se optar por um barco sobre um rio rodeado de margens onde as uvas amaduram e os homens recolhem em suor os raios do Sol. 3

  1. CABRAL, A. M. Pires – Memórias – o meu Douro. Revista da bienal da prata. Lamego, N.º 2 (outono 2001), pag. 11
  2. MOUTINHO, Viale – Glória ao Douro! Diário de Notícias. Lisboa. Ano 138.º, n.º 48 495 (1-1-2002), pag. 11
  3. MACHADO, José Leon - As penas de Ícaro. Braga: Edições Vercial, 2012. ISBN 978-1477581865

Informação adicional

Descrição física

181 p.

Data de publicação

cop. 1999

Editora

Tartaruga

Local de publicação

Chaves

ISNB

972-97419-1-3

Notas

fontes

Vídeo

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