A carta

Ao António Cabral

Amigo, estou bem, obrigado!
(Entre nós a verdade persiste)
é aqui que gosto de estar,
neste largo planalto queimado
onde o barrosão ainda resiste.
Quero-me no meio deste Povo
de suor, de nervos, de olhos baços
com mãos que amadurecem o centeio
e longas noites para reparação dos cansaços
sem fantasmas nem sentinelas pelo meio.
Estou bem aqui, Amigo,
com a chuva descendo pela vidraça,
recordando a lama onde crescia o linho,
o ventre das mulheres em estado de graça
e a levada de água que ia ao cubo do moinho.
Estou bem aqui, meu Amigo,
entre estas serras e o céu,
com quarenta graus de julho
e cinco negativos no inverno:
“Fraco é o gaio que não torna à corga onde nasceu”
que as temperaturas não são engulho
nem, como alguns dizem, o inferno.
Como eles andam enganados, bom Amigo,
nas palavras da boca para fora
cada dia que passa ou hora a hora.
Estou bem com os homens e comigo
só estranho passar pouco tempo Contigo.
Mas fica sabendo que afinal
importa que o barrosão entenda o que digo:
eu bem procuro a palavra certa
mas o homem torce
e retorce
dá o nó antigo
e aperta.

Afinal, que importa o verso,
ou a palavra deserta,
se a avó ainda reza o terço,
se pela varanda voa um morcego,
se me basta olhar os homens
sem palavras nem gestos e eu percebo?

José Dias Baptista, Pisões, 1969
José Dias Batista

José Dias Batista

José Dias Baptista nasceu na Vila da Ponte, em 24 de Julho de 1941, filho de pai comerciante e mãe doméstica. É o segundogénito de seis irmãos que antes de entrarem na Escola já sabiam ler, escrever e contar, fruto das ideias avançadas da dita progenitora que viveu muitos anos à frente do seu tempo. Dela se poderá dizer o que uma família romana disse, no mármore do túmulo, da matrona Cláudia:

Casta vixit, lanam fecit, domum servavit.

Viveu castamente, vestiu a família (no corpo e no espírito) e foi escrava da sua casa!

Frequentou o Seminário de Vila Real de 1952 a 1958, seguindo a secular tradição da família paterna, igual à de outras famílias de Barroso.

Entre Julho de 1966 e Julho de 1968, como Alferes Miliciano de Artilharia comandou o 1o Pelotão Independente de Caçadores Naturais, 40 militares negros enquadrados por cinco militares brancos.

De 1968 a 1975 foi professor do Ciclo Preparatório passando no imediato a Orientador Pedagógico com funções inspectivas ao longo de 20 anos.

Licenciou-se na área de Ciências da Educação e pós-graduou-se em Animação Sociocultural. Em 1996 concorreu à Inspecção-Geral da Educação onde se aposentou como Inspector Principal, em 2006, tendo dedicado 40 anos da sua vida à Educação e três ao serviço militar obrigatório.

É feliz por nascer e viver em Barroso, onde espera morrer.

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