Magustos

Quem entre o dia de Todos os Santos e o dia de S. Martinho, sobretudo neste, não participou num magusto em plena montanha, sentindo-se livre como um animal bravio, como ele cheio de olhos para as coisas em volta, a projetar uma sombra partilhada pelos convivas e pelo vento, bem pouco saberá do que é um magusto. O que não quer dizer que não goste de castanhas e vinho novo e não se sinta bem a saboreá-los numa adega, na rua ou num restaurante, em família, só ou com os amigos.

Dizem Jung, Bachelard e outros que no fundo de cada um de nós, lá onde as mãos diárias não chegam, se vão acumulando restos do passado não só individual mas também coletivo que se organizam em complexos e transparecem em imagens primordiais: de água – a ondina; de terra – o gnomo; de ar – a sílfide; de fogo – a salamandra. A memória da memória. Granulada. Gostos imperecíveis. Que voltam quando nos aproximamos das origens.

Porque é que toda a gente, sem exceção, sente apenas em certos momentos este ou aquele prazer em todo o seu esplendor? Como se o quotidiano fosse depositando em nós uma poeira compacta de onde tivéssemos necessidade de ressurgir como de um túmulo. No momento em que experimentamos a sensação de ressuscitar assumimo-nos como árvores que irrompessem de fundas raízes.
Porque é que os homens gostam de trepar aos Himalaias e olhar a imensidão, como se ouvissem o silêncio, ou de se embrenhar na Amazónia e ouvir os rumores infindáveis das coisas, como se os vissem?

Há alguns anos que não vou a um magusto na serra, ao pé dos castanheiros, ao pé do Grande Tempo…

O chefe do clã era o primeiro a subir e com a prata dos olhos devotamente rodada entre as mãos convocava o fogo dentre um punhado de ervas secas, depois vinham os outros e o chão coalhado de castanhas que as labaredas recebiam no ventre fulvo, dançavam à roda como abelhas e, já sentados, comungavam o fogo quando ele entrava nos pequenos corpos em delírio, no sumo fervente da uva que apazigua as bocas, evoé, evoé, no morro fronteiro havia também uma coluna de fumo e dois jovens amavam-se à sombra do espinheiro.

Há alguns anos que não vou a esse magusto e não sei bem do sabor agreste que atravessa a língua, se é do magusto a que assisti, a minha avó tinha um halo branco à volta das palavras e aconselhava-me, ao ver as mãos enegrecidas, a pôr mais sol na música, se é do gosto imperecível que volta, quando com os pés doridos nos aproximamos da origem. Mas então o magusto arde nesta página como os amantes do espinheiro e o chefe do clã no dia seguinte a dizer aos filhos de Andrómeda, a dos olhos doces, viera pala noite varrer as cinzas – entre o dia de Todos os Santos e o S. Martinho.

Acender uma fogueira, andar à volta dela, ouvir nos olhos as castanhas aquecerem no brasido e ir com eles de monte em monte, de nuvem em nuvem, sujar as mãos, beber a terra, a alma da terra, no vinho, por uma pichorra de barro, ainda, bonum vinum laetificat cor hominis, o vinho tem carícias de veludo, juntar a voz à dos companheiros, cantar e saltar a fogueira, quem salta, quem não salta, deixar que alguém nos pinte o rosto com um tição, entrar no jogo e estar nele, na festa, oh liberdade!

Comer meia dúzia de castanhas de um cartucho no Rossio ou no cruzamento de Santa Catarina e Passos Manuel não é, nunca será a mesma coisa.

De tempos a tempos temos necessidade de sacudir o homem velho que cresce dentro de nós. Um magusto pode dar-nos essa oportunidade. Bem melhor é limpar as mãos a uma nuvem do que a um guardanapo de papel reciclado.

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