Sublimação da matéria

Prémio Literário ‘António Cabral’ 2017

pouso a mão sobre a terra e digo: sou
daqui, esta é a minha casa, aqui pertenço.
eu sou deste país feito de barro e pedras
onde à noite vêm beber as árvores, onde
nascem os rios e acordam as palavras.

afago com a mão a terra e não resisto
a declarar: amo-te com tua rudeza, tua
brutalidade, teus vermes e teus frutos
futuros, tuas correntes magníficas
subterrâneas de um ciclo perpétuo e
sem tumulto. estendo a mão e adivinho
a calma acesa, o coração aberto, o
fogo incendiando o estrume: tudo em ti
permanece e de ti se alimenta, tudo
converge para ti e lá perdura. estão

em ti, disseminados em partículas
minúsculas, cada dia se afastando mais,
todos quantos amei e amo estando em ti
sob a campânula verde das palavras.
partem de ti os fluxos e os refluxos, o
mar sucumbe na maré dos teus lábios
onde a saliva se transforma em espuma.
pouso a mão e respiro a seiva úbere
da terra, território de lume paus e pedras,
esse país com tanto amor feito de barro.

(poema extraído da obra inédita Sublimação da Matéria)

Nuno de Figueiredo, Prémio Literário António Cabral 2017

Nuno de Figueiredo, Prémio Literário António Cabral 2017

Nuno Alberto Marques de Figueiredo nasceu em Coimbra, em 1943. É licenciado pelo Instituto Superior Técnico.

Publicou em 1985 o seu primeiro livro de poemas, O Desencanto em Canto (edição de autor) e, em 2002, o romance, Os Sinos de São Bartolomeu (Temas e Debates), tendo voltado à poesia em 2003 com A Única Estação (Quasi).

Tem publicado cerca de três dezenas de outras obras poesia, contos, romances, várias das quais distinguidas com prémios literários. Nas primeiras aventuras poéticas assinou Alberto Marques, passando, a partir de Parábolas de Salvação, a assinar Nuno de Figueiredo, independentemente do género tratado.

Escreve para jornais e revistas literárias e está representado em diversas antologias.

A Ilha de Arcangel foi distinguido, em 2005, com o prémio Vasco Branco.

A obra Sublimação da Matéria venceu, em 2017, com o prémio António Cabral.

Ainda não há comentários.

Deixar uma resposta