Falo-vos da montanha

22.00

APOSTO AO “HOMEM MENSURA”

As palavras húmidas
Do suor nascido
E corrido das
Paredes do cérebro;

As palavras idas
No corpo do vento,
Vindas no comboio
Noturno dum sonho;

As palavras dadas
Na respiração
Dos poros, nas mãos
Marcadas de terra;

Essas é que dão
Lugar à ternura
E gritam o homem
Dos pés à cabeça.

 

Palavras que sejam
O ritmo do sangue
E tenham a altura,
Toda duma alma;

Palavras talhadas
A’ feição dos ossos!
Essas e só essas
Nos encontram, homens

Com os pés de argila
Pegados à noite
E os olhos furando
A última galáxia.

 

 

 

 

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Descrição

Ao reler os magníficos poemas de A. C., ocorrem-me as conhecidas palavras de Walt Whitman: “Aquele que tocar este livro toca um homem”. Efectivamente, Falo-vos da Montanha – o último livro de poemas de A. C. – significa algo mais que um belo livro de poesia. Prescinde, o autor, daquilo que Hernâni Cidade chamou “poesia-jogo” e do verbalismo exagerado de alguns poetas de vulto, entre os quais poderiamos citar F. Pessoa, para nos introduzir no reino da poesia autêntica. Não receia as palavras nuas e sangrentas, que dizem “a verdade das suas horas de homem”. Mais ainda: Ele procura essas “palavras talhadas à feição dos ossos”, porque aquele poeta que o habita,
…Tem os pensamentos/Amontoados/À espera da palavra/E,/Luta por ela esfarrapando o tempo. 1

Poeta da paisagem, a que se liga pelos laços da sua paisagem interior, religiosamente calmo perante os sucessivos partos da natureza (as espáduas da montanha por onde escorrem tranças de lua; o bailar das sombras na festa do pôr do sol…), António Cabral é, no entanto, um poeta do homem, dessa gente humilde com palavras torcidas em raivas humaníssimas… (…) A crença nas palavras, como quando as canta se prova, grava no poema uma claridade fina, às vezes quente, outras suavemente frágil: Palavras que sejam / O ritmo do sangue / E tenham a altura / Toda duma alma. 2

Escreve algures Dâmaso Alonso que a poesia é um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor… Esta afirmação tem inteira aplicação ao caso de António Cabral.
O leitor não pode superficialmente permanecer numa atitude passiva perante a sua poética. É que ela prende-o, absorve-o, e arrasta-o. Impregnada dum poder mágico – que outras não se ufanam de desfrutar – esta poesia possui algo que a especifica, que lhe confere uma tonalidade própria.
Além disso, deste livro que é o segundo (sic) do Autor, desprende-se uma densidade que não se afigura vulgar. E parece-me que é essa densidade – com raízes em Torga e Teixeira de Pascoais – mas possuidora simultaneamente dum cunho pessoal inegável, que poderá classificar-se como a principal característica do jovem poeta. 3

Jean Cossou afirmou: “Il  n’est de problème que de l’homme, et il ne peut être de poesie que de l’homme”.
A poesia é, pois, o homem com as suas frustrações, os seus problemas e a sua posição perante a vida e perante Deus.
Falo-vos da Montanha é a síntese desse fenómeno exclusivamente humano e profusamente ilustrado por poemas recheados de pureza e propriedade de estilo, de apurado sentido rítmico, de todas as características, enfim, que assinalam ao autor uma personalidade de autêntico poeta. 4

 

  1. CHAVES, Dinis – António Cabral o humaníssimo poeta de “Falo-vos da Montanha”. A Voz de Chaves. Chaves (01-01-1959)
  2. BRITO, Casimiro de – Título do artigo. Cadernos do meio-dia: antologia de poesia, crítica e ensaio. Faro. N.º 4 (fevereiro, 1959)
  3. GERALDES, J. Almeida – “Falo-vos da montanha” por António Cabral. Novidades. Lisboa (08-11-1959)
  4. MIRANDA, Alberto – Falo-vos da montanha (poemas de António Cabral. Amigos de Bragança. Bragança (1967)

Informação adicional

Peso 150 g
Descrição física

Data de publicação

Editora

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Notas sobre o estado do livro

Papel amarelecido pelo tempo.

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