Poemas durienses

10.60

DESCALÇA VAI PARA A FONTE

I

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
Vai formosa e não segura.

II

Se tivesse umas chinelas
iria melhor…; mas não:
co dinheiro das chinelas
compra um pouco mais de pão.
Virá o dia em que os pés
não sintam a terra dura?
Leonor sonha de mais:
vai formosa e não segura.

Formosa! Não vale a pena
ter nos olhos uma aurora
quando na vida – que vida!
o sol já se foi embora.
Se os filhos se alimentassem
com a sua formosura…
Leonor pensa de mais:
vai formosa e não segura.

 

Há verdura pelos prados,
há verduras no caminho;
no olmo ao pé da fonte
canta, livre, um passarinho.
Mas ela não canta; não,
que a voz perdeu a doçura.
Leonor sofre demais:
vai formosa e não segura.

Porque sofre? Nunca soube
nem saberá a razão.
Vai encher a talha de água,
Só não enche o coração.
Virá um dia… virá…
Os olhos voam na altura.
Leonor não anda: sonha.
Vai formosa e não segura.

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Descrição

Carlos Queirós escreveu um dia estes versos: “– Vamos todos atados uns aos outros. / Não vos doem os pulsos?” Os poetas quer queiram quer não, mesmo dominando as afinidades e acusando a vida pessoal, vão atados uns aos outros. Há quem sinta os puxões de Homero, de Dante, de Claudel, de Valéry. E os pulsos doem. António Cabral, nestes seus belos poemas durienses, sofre o influxo de três estrelas de alta grandeza – Guerra Junqueiro, Pascoais e Miguel Torga. Mas é talvez Torga quem sombreia mais beneficamente esta poesia. Nos seus momentos de melhor concentração, o poeta mostra que recebeu a lição, mas de modo ativo e assimilador: “Montes de pedra dura, / gólgotas / onde os geios são escadas! / Venham ver como sobe o desespero / e a esperança, de mãos dadas.”
As duas notas mais fundas da poesia de António Cabral neste livro vão para a terra transmontana, dramática e revolta, e para o homem, sobretudo o humilde, que por lá moireja e sua as estopinhas. A poesia da natureza agita-a uma sintaxe bem articulada, e patente emoção dá frémito aos poemas, mas o maior mérito vai para as composições onde surge o homem e o seu drama, e a expressão se condensa. O drama, porém da vida dura, inglória, acusa-se não tanto nos poemas, um nadinha ralhados, como nos terreiros neo-realistas, quanto naquela excelente poesia que é – “Descalça vai para a fonte” (…)
Estes poemas são realmente durienses: rocha, fundões plutónicos, vindimas, neves, chão de vida castigada. De longe, parece que essa vida deve ser formosa por lá. Mas tal como a Leonor, entrevista pelos versos de António Cabral, não parece que vá muito segura. Mas é bom que “lá nos altos montes, sem trigais nem vinhas” se erga a voz dos poetas a celebrar, mais que as ermidas e os cerros marânicos, as vidas baças por fora e luminosas por dentro. António Cabral é poeta de cepa. Corte alguns sarmentos que se lhe enrolam nas barbas de Junqueiro, e não deixe que Torga lhe oprima de mais o pulso da escrita. Não lhe falta inspiração. 1

Mas, se tivéssemos de escolher um espaço de inspiração por excelência – esse espaço seria o Douro, sobretudo a partir desse livro de extraordinária força que são os Poemas durienses. É certo que já antes em O mar e as águias, assim como em Falo-vos da montanha e A flor e as palavras, já aparece o tema do Douro num ou outro poema. Mas os Poemas durienses são uma autêntica explosão de amor pelo Douro. Seria útil enquadrarmos essa obra na circunstância de António Cabral. O livro é, como já dissemos, de 1963. Em 1962, criara-se em Vila Real, onde António Cabral já vivia, um grupo que se pretendia de intervenção cultural: o Movimento Setentrião, já referido. Era constituído por jovens estudantes e outros, cujas opções políticas eram bem conhecidas. António Cabral, por sua vez, era também um homem de esquerda. O Movimento Setentrião gerou entusiasmos de intervenção cívica nos seus elementos, e o nosso poeta – unanimemente reconhecido como mentor do grupo -, galvanizado por esse entusiasmo, não negou o seu contributo, publicando na Coleção Setentrião os seus Poemas durienses, que obteve logo um considerável reconhecimento público, por ser um olhar novo sobre a região do Douro, de um autor que punha mais ênfase nos dramas e epopeias do homem do Douro do que nas belezas paisagísticas e no folclore que, salvo raras exceções, até então andavam associados à poesia duriense. 2

  1. MAIA, João – Poemas Durienses. Brotéria. Lisboa. Vol. LXXVIII, nº. 5 (maio de 1964), pag. 648
  2. CABRAL, A. M. Pires – Viajar com… : António Cabral. Vila Real: Direção Regional da Cultura do Norte, 2009. ISBN 978-989-8100-31-3. pp.27-28

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