A vindima

Na última vindima, ao cortar as uvas
que deitava nos baldes, a gente falava alto
e dizia graçolas como nos anos anteriores.
Isso era o que se via. Mas de facto
a gente cortava bocadinhos de si própria
e deitava logo punhados de terra
no vinho que acabava de descer à cova.
Assusta ouvir o silêncio. A toupeira entra
no coração e dói, o que sempre acontece
com um amor aflitivo. Os camiões, rom-rom,
continuam a subir penosamente a ladeira,
mesmo nas descidas. Ao longe fulge
o clarão imenso das cidades.

in O homem que fugiu com o rio às costas (livro de poemas inédito, 2007)
 

One Response to “A vindima”

  1. Orlando Miranda 01/10/2017 at 11:28 #

    Aqui, o António Cabral estava a pensar na sua última vindima. Só um conhecedor profundo da região poderia associar o vinho que cai na vasilha ao “silêncio profundo” .

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